Category Archives: Arte Urbana

Arte Urbana é o circuito que envolve as intervenções de artistas no espaço público da cidade. Existem uma série de intervenções artísticas praticadas na cidade: pixo, grafitti, bomb/grapixo, micrografite entre outras. Nessa categoria serão registrados os atores (individuais e coletivos), espaços (públicos e privados), eventos e informações como meio de informação e divulgação da atividade artística na cidade de São Paulo.

Entrevista com os integrantes do “O Crew”

Entrevistados: Leo, Vini e Vitor

DESURBANISMOS: Como vocês começaram, com graffiti ou pichação?

Começamos fazendo pixo ou tag, a maioria não começa diretamente no graffiti em si.

DESURBANISMOS: Existe um mercado de arte de rua? Como funciona?

Fazemos trabalho de maneira “comercial”, quando as pessoas nos contratam, e neste caso somos, de certa forma, obrigados a seguir o que as pessoas pedem. Como cada grafiteiro tem um estilo específico, às vezes temos que fugir do nosso próprio estilo para agradar o cliente, então em alguns casos indicamos outro grafiteiro que segue o estilo que a pessoa pede.

DESURBANISMOS: Dentro deste mercado, como vocês veem os grafiteiros que atingem uma certa fama?

Na cultura do graffiti está inserida a questão da ilegalidade, desde como ele surgiu, e recentemente vêm se inserindo em galerias etc. O conceito básico do graffiti é a rua, independente dele estar presente nas galerias ou não.
Mesmo os grafiteiros que vão expor seus trabalhos internacionalmente não perdem o respeito por seu trabalho, pelo contrário, mas o que acaba acontecendo muitas vezes é que eles perdem um pouco a essência que tinham antes, da questão das ruas. A questão da arte comercial está muito presente, as pessoas pensam muito em serem famosas antes de qualquer coisa, e isso acaba sendo negativo.

DESURBANISMOS: Como o artista de rua transforma a cidade?

Pra ser artista de rua, é necessário respeitar as outras pessoas que fazem outros trabalhos, seja pixação ou graffiti, tem que saber o que você está fazendo. Sempre é importante ter em mente que a partir do momento em que um trabalho é feito na rua, aquilo deixou de ser seu e passa a ser de todo mundo, todos que passam na rua têm uma reação do trabalho, encaram de uma forma diferente, comentam com pessoas de uma forma diferente. O graffiti baseia-se na forma com que as pessoas vão absorver aquilo para elas.

DESURBANISMOS: Quais são as diferenças e semelhanças entre a arte de rua na região central e na periferia?

Dependendo do lugar, as pessoas reparam mais no graffiti, percebendo até uma influência com a classe social das pessoas. Por exemplo, dificilmente a qualidade de um graffiti que está na Vila Madalena será encontrado em uma periferia, a não ser que aconteça um evento de encontro de grafiteiros. A população reage diferente a pixação e ao graffiti. Na periferia o graffiti é mais aceitável, pode-se dizer, pois reflete a carência de cultura do local, e mesmo carência te atenção dos moradores, então aquilo é mais bem visto. Além do que, para os grafiteiros entrevistados é mais satisfatório fazer este tipo de trabalho em uma periferia do que em uma grande avenida, justamente por isso.

DESURBANISMOS: O Governo intervém na arte de rua de uma forma positiva ou negativa? Como é essa intervenção?

Ao mesmo tempo que o Governo abarca, eles apoiam, querem sistematizar a arte. Por exemplo o que aconteceu com a Avenida 23 de Maio, em que houve o planejamento e contrataram os artistas que sempre pintam, até criou-se uma certa “rixa” com os outros artistas. Conhecemos os grafiteiros que estavam pintando, a polícia os parou e como penalidade tiveram que pagar em cestas básicas ou em serviços comunitários, mas com a gente isso nunca aconteceu.
É interessante que muitas vezes os policiais tem preconceito com o material que estamos utilizando, por exemplo se estamos portando sprays coloridos acabam sendo mais flexíveis do que se estivéssemos apenas com sprays pretos.

DESURBANISMOS: Qual é a reação das pessoas ao verem vocês grafitando?

Muitas vezes as pessoas não ligam para o graffiti, mas para o pixe sim, até mesmo pela forma como é feito, se vamos pintar a noite não seremos muito bem aceitos, até mesmo por conta que isso é considerado ilegal. A pixação é agressiva aos olhos de quem não entende. Ela está atrelada ao graffiti só que muito mais dissociada; o graffiti pode dizer por si só em um desenho apenas e a pixação pode transmitir uma mensagem escrita.

O que mais assusta os paulistanos: Hugo Chávez ou um rosto negro?

O que mais assusta os paulistanos: Hugo Chávez ou um rosto negro?

(José Carlos Vaz)

Martin Jayo e André Fontan Kohler, professores de Gestão de Políticas Públicas na EACH-USP, publicaram artigo sobre os grafites nos Arcos do Bexiga, entre a Rua Jandaia e Rua da Assembléia, polemizando com o professor da FAU-USP Carlos A. C. Lemos (veja links abaixo).

É uma polêmica que nos faz pensar sobre o momento de disputa de projeto que São Paulo vive.

O debate se dá em torno da convêniência da realização dos grafites nos vãos entre os arcos, originalmente construídos como uma estrutura a funcionar como muro de arrimo para suportar o desnível entre duas ruas.  A prefeitura de São Paulo, em um movimento de valorização do grafite e da arte de rua, promoveu a realização de várias obras nos vãos entre os arcos.

As críticas à intervenção, apresentadas de maneira fundamentada e elegante pelo professor Carlos A. C. Lemos, tem duas dimensões. Em primeiro lugar, apontam a impropriedade da realização da própria intervenção, defendendo que a manutenção do monumento como estava, pintado em cores discretas em gestões anteriores da prefeitura, era uma maneira satisfatória de conservar e apresentar a estrutura. Nesse sentido, corresponde a uma visão de conservação do patrimônio baseada na sua apartação da vida real da cidade, que elege uma versão aceitável de uma obra do passado,  mantida aparentemente intocada, oferecendo-se uma fruição passiva e desconectada da evolução da cidade.  O artigo dos professores Martin Jayo e André Fontan Kohler rebate esses argumentos, mostrando a inadequação dessa postura como visão do patrimônio e demonstrando que intervenções em governos anteriores já poderiam receber as mesmas acusações, mas foram poupadas, assim como foi ignorada e poupada pelas críticas a intervenção semelhante no edifício da Pinacoteca, promovida pelo governo estadual.

A segunda dimensão da crítica diz respeito ao próprio conteúdo das obras realizadas nos vãos dos arcos. Aí, proliferam os adjetivos desqualificadores: “delirante”, “pretenso”, “travestido”, “insanidade”. Em outros lugares, outros críticos usam expressões como “aberrações”. Essa vertente da crítica quer separar o grafite bonito do grafite feio; o grafite que merece ser exposto na Tate Modern e o grafite que deve ser apagado; o grafite que merece ser visto pelos ordeiros paulistanos e o grafite que causa a “repulsa de muitos”. É claro que há, aí, todo um debate estético a ser feito, e que já se repetiu: nas artes pĺásticas, abundam casos de expressões inicialmente tomadas como de má qualidade, grotescas e repulsivas que depois viram-se convertidas em novos cânones. Dizer qual é a arte boa e qual é a arte ruim é sempre um exercício de poder.

Nem todos os críticos têm a lucidez e boa-fé do professor Carlos A. C. Lemos. Na Folha de São Paulo, sempre pronta a combater qualquer coisa que vagamente lembre redução das desigualdades econômicas e sociais, viu-se em uma das obras uma imagem assustadora de Hugo Chávez. A pobre imagem, descrita pelo professor como “imensa cabeçorra ali exposta de pretenso negro, pintado por um jovem travestido de antropólogo” foi tomada, não por ele, mas pelos paranóicos tão abundantes nesta cidade, como dirigismo da prefeitura para fazer propaganda comunista, o que justificou o vandalismo contra a dita obra. (Ah! A arte sempre faz os fascistas saírem de seus casulos…)

O apoio de muitos ao ataque às obras nos Arcos do Bexiga diz muito das disputas que São Paulo vivencia.

É preciso entender que a produção e a fruição do grafite não pode ser tratada unicamente pelo prisma da estética oficial,  estabelecida pelos formuladores do cânone artístico dominante (e, em última análise, ditado pelo mercado em sua posição de poder). A produção e fruição do grafite não é uma experiência estética realizada a portas fechadas por e para iniciados. O  grafite é, antes de mais nada, um fenômeno social que não pode ser tratado separadamente do fenômeno urbano. O grafite faz parte da cidade e traz consigo as contradições urbanas e a disputa pela apropriação do espaço urbano.

Nesse sentido, ao ser polêmico, o grafite cumpre um papel revelador, porque evidencia as disputas entre diferentes projetos de cidade e também dá luz à tensão entre a regulação da cidade oficial das elites, e as aspirações, inquietudes e revoltas daqueles  que vêem nesta cidade as marcas de um desurbanismo excludente e segregador.

O grafite surge como contestação e crítica à cidade cinza dos automóveis e dos desprezados motoboys mortos como moscas; como desafio à cidade que substituiu as empenas cegas por edifícios feitos à base de uma migalhenta desarquitetura, com suas dezenas de janelinhas ou suas placas de vidro sem expressão para lhe deixar a feiúra mais atualizada. As práticas da comunidade do grafite têm, ao menos em sua origem, um componente de esponteneidade e autoregulação. Querer fazer o grafite “oficial” ou “autorizado” em seu conteúdo é ir contra essa origem e esses princípios. É transformar o grafite em um desfile de escolas de samba, capturado e pasteurizado pelo gosto oficial, definido por quem tem poder econômico ou simbólico para definir qual seja esse gosto oficial. Desse jeito, daqui a pouco estarão dizendo que só serão autorizados grafites que mostrem a pujança e o espírito bandeirante de São Paulo. Teremos uma cidade de Borbas Gato em todos os muros, para mostrar ao mundo nossa miséria civilizatória.

Quando fala de “insanidade reinante entre nós”, evidenciada na imagem do “pretenso negro”, talvez o professor Carlos A. C. Lemos mire no que vê e acerte no que não vê: de fato, este debate evidencia a insanidade reinante na cidade de São Paulo. Consonante com sua posição de metrópole internacional do terceiro mundo (como dizia Milton Santos), São Paulo acostumou-se a uma posição subordinada, expressão de um país sem direito à real soberania. Para quem está acostumado a obedecer, é preciso que sempre se diga o que é certo e o que é errado, o que é bonito e o que é feio. Para quem obedece pensando que está mandando, é preciso ter a ilusão de que se controla tudo e se mantém os indesejáveis em seu devido lugar.

Enquanto isso, a produção da segregação sócio-espacial segue voraz, devorando sociabilidades e esperanças. Fechados em seus condomínios-senzala, os ordeiros cidadãos seguem no voraz ritmo da marcha da insensatez paulistana, combatendo qualquer tentativa de humanização, de promoção da igualdade e de ação emancipatória na cidade.

O que esperar de uma cidade tão insana? O que esperar de uma cidade onde causa revolta priorizar o transporte público e por bicicleta? O que mais poderia produzir uma gente que é contra o tratamento humanizado dado pela prefeitura aos viciados em crack? Não parece de, fato, haver muito o que esperar de uma cidade que nem mais água tem, mas que reelege em primeiro turno os responsáveis por isso…

Clique aqui para ler o artigo A batalha dos Arcos do Bixiga – Mais arte e mais cidade, mas menos arte na cidade!, de Martin Jayo e André Fontan Kohler
Clique aqui para ler o artigo Os arcos do Jânio, de Carlos A. C. Lemos

I Encontro de Grafitti e Bomb Jd. Keralux

 

 

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No dia 1o de março de 2015 , mês em que se comemora a cultura hip-hop, os grafiteiros e bombers do bairro Jd. Keralux com a presença de coletivos de diversos bairros da Zona Leste, realizaram uma intervenção artística nos muros da linha 12 – Coral da CPTM.  A iniciativa surgiu entre um grupo de jovens moradores que buscaram trazer arte, cultura e lazer para a comunidade.  A mobilização envolveu moradores e o comércio local que doaram alguns doa materiais necessários para tornar possível a intervenção. O evento contou com atividades para as crianças, B-boys e shows ao vivo.

Confira as fotos do evento:

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Cidade Cinza

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A batalha das cores  contra o predominante cinza na cidade de São Paulo é a temática do documentário de Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo “Cidade Cinza” filmado durante 7 anos até ser lançado em 2013. No cenário emblemático da Avenida 23 de maio e seu gigantesco painel de 700 metros apagado pela Prefeitura em apenas uma noite é repintado no decorrer do filme por algumas das principais personalidades do grafite brasileiro Os Gêmeos (Otávio e Gustavo), Nina, Zefix, Finok, Ise e Nunca que protagonizam a reflexão sobre a dinâmica do grafite em São Paulo. Em paralelo são registrados os procedimentos de perseguição ao grafite.

A rotina dos “perseguidores” mostra a ingenuidade e submissão dos funcionários que apagam a arte dos muros,  mostrando a falta de critério da Prefeitura em apagar as imagens como parte do conjunto de ações da “Lei Cidade Limpa”.  Enquanto isso, a arte de rua passou a fazer parte da cultura paulistana o que resultou em forte pressão popular contra o procedimento da Prefeitura, principalmente, no episódio do  “apagão” da 23 de maio que foi considerado em “equivoco” pelo então prefeito Gilberto Kassab.

O filme apresenta de forma critica e descontraída contradições urbanas e o papel da arte na terra da garoa, cinza por natureza. A apresentação da perseguição à arte de rua que se mostrou extremamente eficiente enquanto outras questões continuavam apresentando carências básicas durante um processo de reconhecimento dos artistas pela sua cidade.

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Links relacionados:

http://followthecolours.com.br/just-coolt/filme-cidade-cinza/