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O que mais assusta os paulistanos: Hugo Chávez ou um rosto negro?

O que mais assusta os paulistanos: Hugo Chávez ou um rosto negro?

(José Carlos Vaz)

Martin Jayo e André Fontan Kohler, professores de Gestão de Políticas Públicas na EACH-USP, publicaram artigo sobre os grafites nos Arcos do Bexiga, entre a Rua Jandaia e Rua da Assembléia, polemizando com o professor da FAU-USP Carlos A. C. Lemos (veja links abaixo).

É uma polêmica que nos faz pensar sobre o momento de disputa de projeto que São Paulo vive.

O debate se dá em torno da convêniência da realização dos grafites nos vãos entre os arcos, originalmente construídos como uma estrutura a funcionar como muro de arrimo para suportar o desnível entre duas ruas.  A prefeitura de São Paulo, em um movimento de valorização do grafite e da arte de rua, promoveu a realização de várias obras nos vãos entre os arcos.

As críticas à intervenção, apresentadas de maneira fundamentada e elegante pelo professor Carlos A. C. Lemos, tem duas dimensões. Em primeiro lugar, apontam a impropriedade da realização da própria intervenção, defendendo que a manutenção do monumento como estava, pintado em cores discretas em gestões anteriores da prefeitura, era uma maneira satisfatória de conservar e apresentar a estrutura. Nesse sentido, corresponde a uma visão de conservação do patrimônio baseada na sua apartação da vida real da cidade, que elege uma versão aceitável de uma obra do passado,  mantida aparentemente intocada, oferecendo-se uma fruição passiva e desconectada da evolução da cidade.  O artigo dos professores Martin Jayo e André Fontan Kohler rebate esses argumentos, mostrando a inadequação dessa postura como visão do patrimônio e demonstrando que intervenções em governos anteriores já poderiam receber as mesmas acusações, mas foram poupadas, assim como foi ignorada e poupada pelas críticas a intervenção semelhante no edifício da Pinacoteca, promovida pelo governo estadual.

A segunda dimensão da crítica diz respeito ao próprio conteúdo das obras realizadas nos vãos dos arcos. Aí, proliferam os adjetivos desqualificadores: “delirante”, “pretenso”, “travestido”, “insanidade”. Em outros lugares, outros críticos usam expressões como “aberrações”. Essa vertente da crítica quer separar o grafite bonito do grafite feio; o grafite que merece ser exposto na Tate Modern e o grafite que deve ser apagado; o grafite que merece ser visto pelos ordeiros paulistanos e o grafite que causa a “repulsa de muitos”. É claro que há, aí, todo um debate estético a ser feito, e que já se repetiu: nas artes pĺásticas, abundam casos de expressões inicialmente tomadas como de má qualidade, grotescas e repulsivas que depois viram-se convertidas em novos cânones. Dizer qual é a arte boa e qual é a arte ruim é sempre um exercício de poder.

Nem todos os críticos têm a lucidez e boa-fé do professor Carlos A. C. Lemos. Na Folha de São Paulo, sempre pronta a combater qualquer coisa que vagamente lembre redução das desigualdades econômicas e sociais, viu-se em uma das obras uma imagem assustadora de Hugo Chávez. A pobre imagem, descrita pelo professor como “imensa cabeçorra ali exposta de pretenso negro, pintado por um jovem travestido de antropólogo” foi tomada, não por ele, mas pelos paranóicos tão abundantes nesta cidade, como dirigismo da prefeitura para fazer propaganda comunista, o que justificou o vandalismo contra a dita obra. (Ah! A arte sempre faz os fascistas saírem de seus casulos…)

O apoio de muitos ao ataque às obras nos Arcos do Bexiga diz muito das disputas que São Paulo vivencia.

É preciso entender que a produção e a fruição do grafite não pode ser tratada unicamente pelo prisma da estética oficial,  estabelecida pelos formuladores do cânone artístico dominante (e, em última análise, ditado pelo mercado em sua posição de poder). A produção e fruição do grafite não é uma experiência estética realizada a portas fechadas por e para iniciados. O  grafite é, antes de mais nada, um fenômeno social que não pode ser tratado separadamente do fenômeno urbano. O grafite faz parte da cidade e traz consigo as contradições urbanas e a disputa pela apropriação do espaço urbano.

Nesse sentido, ao ser polêmico, o grafite cumpre um papel revelador, porque evidencia as disputas entre diferentes projetos de cidade e também dá luz à tensão entre a regulação da cidade oficial das elites, e as aspirações, inquietudes e revoltas daqueles  que vêem nesta cidade as marcas de um desurbanismo excludente e segregador.

O grafite surge como contestação e crítica à cidade cinza dos automóveis e dos desprezados motoboys mortos como moscas; como desafio à cidade que substituiu as empenas cegas por edifícios feitos à base de uma migalhenta desarquitetura, com suas dezenas de janelinhas ou suas placas de vidro sem expressão para lhe deixar a feiúra mais atualizada. As práticas da comunidade do grafite têm, ao menos em sua origem, um componente de esponteneidade e autoregulação. Querer fazer o grafite “oficial” ou “autorizado” em seu conteúdo é ir contra essa origem e esses princípios. É transformar o grafite em um desfile de escolas de samba, capturado e pasteurizado pelo gosto oficial, definido por quem tem poder econômico ou simbólico para definir qual seja esse gosto oficial. Desse jeito, daqui a pouco estarão dizendo que só serão autorizados grafites que mostrem a pujança e o espírito bandeirante de São Paulo. Teremos uma cidade de Borbas Gato em todos os muros, para mostrar ao mundo nossa miséria civilizatória.

Quando fala de “insanidade reinante entre nós”, evidenciada na imagem do “pretenso negro”, talvez o professor Carlos A. C. Lemos mire no que vê e acerte no que não vê: de fato, este debate evidencia a insanidade reinante na cidade de São Paulo. Consonante com sua posição de metrópole internacional do terceiro mundo (como dizia Milton Santos), São Paulo acostumou-se a uma posição subordinada, expressão de um país sem direito à real soberania. Para quem está acostumado a obedecer, é preciso que sempre se diga o que é certo e o que é errado, o que é bonito e o que é feio. Para quem obedece pensando que está mandando, é preciso ter a ilusão de que se controla tudo e se mantém os indesejáveis em seu devido lugar.

Enquanto isso, a produção da segregação sócio-espacial segue voraz, devorando sociabilidades e esperanças. Fechados em seus condomínios-senzala, os ordeiros cidadãos seguem no voraz ritmo da marcha da insensatez paulistana, combatendo qualquer tentativa de humanização, de promoção da igualdade e de ação emancipatória na cidade.

O que esperar de uma cidade tão insana? O que esperar de uma cidade onde causa revolta priorizar o transporte público e por bicicleta? O que mais poderia produzir uma gente que é contra o tratamento humanizado dado pela prefeitura aos viciados em crack? Não parece de, fato, haver muito o que esperar de uma cidade que nem mais água tem, mas que reelege em primeiro turno os responsáveis por isso…

Clique aqui para ler o artigo A batalha dos Arcos do Bixiga – Mais arte e mais cidade, mas menos arte na cidade!, de Martin Jayo e André Fontan Kohler
Clique aqui para ler o artigo Os arcos do Jânio, de Carlos A. C. Lemos